quinta-feira, 9 de junho de 2011
O que tem para comer?
Fiquei pensando se esta moça estivesse em algumas situações que vivi. Não que eu sempre coma mal quando viajo a trabalho ( tem um hotelzinho em Belém do Pará, de nome começado com Z - Zogbi?Zíngara? - que serve um peixe incrível e que tem de sobremesa um divino creme de cupuaçu, para se comer ajoelhado. Jesus, Maria, José!). Mas, enfim, eu estava falando dos perrengues.
Os piores passei em Minas Gerais. Justo lá, onde está a minha comida preferida! Lembro especialmente de uma viagem pelo Vale do Jequitinhonha, na companhia de uma repórter e de um fotógrafo, fazendo uma matéria sobre cerâmica. Indo de uma cidade a outra acabamos chegando à hora do almoço numa beira de estrada. A cidade mais próxima, onde havia de ter algo de bom, nos afastaria demais do rumo. O jeito foi parar num barzinho. No balcão, agasalhado por uma estufa de vidro, um cozido de mandioca. Eu não vi, mas quem viu me disse: estava “verde”. Mas não é que eu carregava nas minhas tralhas um teco de queijo, comprado em algum sítio do caminho, que eu vinha comendo aos pouquinhos? Almoço para três num dia cheio de trabalho: meio queijo minas e guaraná Antártica. No dia seguinte, já chegando nos finalmentes do Jequitinhonha, caminho para Santana do Araçuaí, foi pior.
Na única portinha aberta, num sem fim de estrada, esbarramos. Era um lugarzinho dos menores, pouco iluminado e com cara de mal limpo. No balcão, algumas coxinhas. Do lado de lá do balcão, um senhor olhou meio torto e soltou, numa voz desanimadora: “São de ontem. Não devem estar boas...”
Uai, se o dono diz, como discordar? Tem alguma outra coisa pra comer? Tinha: paçoquinha. Almoço para três nm dia cheio de trabalho: paçoquinha e coca-cola.
Também em Minas, no Parque Nacional “Grande Sertão: Veredas”, difícil foi escapar da paçoca de carne seca da dona Nica. Passávamos pela casinha de adobe e dona Nica gentil nos convidava. Eu me esquivava daqui, me esquivava dali. Até que, numa noite, já ficando chata a recusa de tão insistente, não houve como escapar. E ela trouxe uma tigelinha recheada e uma garrafa de café.
Não que haja algo de errado com paçoca de carne seca: é um prato tradicional e saboroso. Mas, não bastasse eu não ser lá muito chegada em carne seca, já estava há dias vendo as mantas de carne penduradas nas portas das casas, de frente para as ruas. Passa boi, passa boiada, cavalo, gente e cachorro... a carne ali, como roupa no quarador, secando ao sol roseano, banhando-se de poeira vermelha do sertão. Não dava para encarar. Protegida do escuro da casinha, iluminada por uma fraca lamparina, eu apenas fingia que comia. Batia a colher na tigela para fazer barulho, levava-a próxima à boca e devolvia ao seu lugar. Mas o fotógrafo que estava comigo, João Correia Filho, era do tipo avestruz. Além de bom de garfo, gostava do prato. Como a tigelinha era para nós dois, eu contava que ele comeria a parte dele e a minha também. E continuei com meu teatrinho.
Nem o café eu tomei todo, que era ruim demais da conta. Só mais tarde, já afastados dos ouvidos de dona Nica, que apesar de mal cozinheira era um amor de pessoa, confessei o meu embuste. E por pouco não apanhei: o “bom de garfo”, por mais bom de garfo que fosse, também se lembrou das carnes penduradas. E foi com esforço que comeu, tentando entender porque é que não acabava nunca a bendita paçoca!
Mas eu levei tudo isto numa boa. Perrengue mesmo passei no Pará. Em Afuá, no Marajó, simplesmente não se achava café. Sim, café, este líquido precioso e indispensável para sobrevivência humana. Não que os afuaenses não tomassem café. Eles só não vendiam. Na padaria: acabou. Mas são nove horas da manhã! Mas acabou. Outra padaria: ah, aqui só temos pão. Era final de tarde e a vida já estava se tornando insuportável quando, enfim, numa lanchonete caseira, a dona me disse:
- Ter, não tem. Mas, se você quiser, posso fazer.
Ufa! Sorri agradecida, lembrando como é bom quando estamos fora de casa e conseguimos não passar por privações.
Por estas e outras, fico pensando na repórter, parceira de viagem do Pedro Martinelli. Iogurte? Saladinha? Minha filha, dieta se faz em casa. Na rua, se encontrar comida, agradeça e peça a Nossa Senhora do Desterro que te proteja da salmonela e companhia. E bom apetite!
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Juan Rulfo

Era um bar instalado nos fundos de um estacionamento, num imóvel meio caindo e mobiliário mais descombinado que de república estudantil. Mas com muitas opções de cervejas de nomes impronunciáveis, aprisionadas em garrafas pequenas e preços grandes. Enfim, um pouco daquele pedantismo paulistano, que oscila entre pretensão e charme. Para ficar ainda mais charmoso – e pretensioso – só tocava jazz.
E eu nem ouvia a música, nem bebia cerveja: estava ocupada demais com o pesado embrulho de presente em minhas mãos. Era óbvio que era um livro. Mas qual? Eu intencionalmente não abria. Queria prolongar aquela sensação gostosa de ansiedade, antes que a curiosidade falasse mais alto.
Quando abri, abri devagarinho. Na parte de baixo da capa, vislumbrei as palavras Juan Rulfo. Fechei correndo. Juan Rulfo? O livro “100 fotografias”, de Juan Rulfo? Precisei de alguns segundos antes de ter coragem de abrir novamente e confirmar.
Uma semana antes eu tinha lido um texto de outro Juan, o Esteves, sobre esse livro. E o desejei com tanta força que nem ousei desejá-lo. Sabe como é? Quando uma coisa é tão especial que a gente humildemente nem se atreve a querer? Foi assim. Só que eu mandei esse texto para uma pessoa muito querida (juro que não foi uma indireta). Que dias depois entrou numa livraria para comprar um presente de aniversário para um amigo. E o livro estava lá, todo exibido. Agora está aqui, ora nas minhas mãos, ora na mesinha da sala (Helena, se você encostar um dedo nesse livro, se amassar, sujar ou qualquer coisa assim, o bicho vai pegar!).
Eu e o Juan Rulfo fomos apresentados há pouco mais de um ano. Um ano e dois meses, para ser exata. Quero dizer, ele foi apresentado a mim, porque duvido muito que ele saiba quem eu sou. Foi um presente também, um pacotinho que chegou pelo correio, enviado de Florianópolis por um amigo querido com quem compartilho meu apego por livros (a misantropia é uma bobagem: o que mais vale nessa vida é a presença de pessoas queridas). Mas não era um livro de fotos, era o romance “Pedro Páramo”. E eu nem sabia – nem havia nenhum comentário no livro, nem meu amigo me disse – que o autor era também fotógrafo. Foi pesquisando sua obra literária que fiquei sabendo, com o comentário contundente de Susan Sontag: “É o melhor fotógrafo que conheci na América Latina”.
Se ela disse, quem sou eu para discordar? Foi o meu fotógrafo do ano. Comecei a pesquisar imagens e textos sobre ele. A última coisa que vi foi justamente a crítica de Juan Esteves, publicado no blog do Paraty em Foco, sobre o livro que foi lançado em dezembro de 2010 pela Cosac Naify e é uma homenagem ao fotógrafo. São, obviamente, cem fotografias, com praticamente todas as temáticas que ele abordou (de fora ficaram apenas as fotos de dança) e que fazem uma espécie de resumo de seu trabalho fotográfico.
Carlos Juan Nepomuceno Pérez Rulfo Vizcaíno nasceu no México em 1917 e passou toda a infância e adolescência no interior do país. E foi nesse o espaço em que viveram também seus personagens, os criados pelas palavras e os criados pelas imagens. Apesar de ser considerado por muitos críticos como o maior escritor mexicano e um dos maiores do continente, Rulfo assumia a autoria de apenas dois livros: os contos de “Chão em Chamas” e o romance “Pedro Páramo”, publicados em 1953 e 55. Na década de 60, “O Galo de Ouro”, com textos que ele escreveu para cinema, foi publicado por insistência de seu amigo Vicente Rojo. Já o fotógrafo Juan Rulfo parece ter nascido bem mais tarde.
Apesar de suas fotos terem sido publicadas já na década de 40, na revista América, ele só foi reconhecido como fotógrafo quando aconteceu a exposição Homenaje Nacional, no Palacio de Bellas Artes, na Cidade do México. Três anos depois, 96 imagens da exposição se transformaram no livro “Inframundo”. Depois vieram “México, Juan Rulfo Fotógrafo”, “Juan Rulfo, letras e imágenes” e “Juan Rulfo”, todos lançados a partir de 2001.
É claro que as duas coisas, fotografia e literatura, estão sempre sendo comparadas. Há os que procuram as similaridades. E os que procuram as diferenças. Os que acreditam que ele escrevia para expressar o que não cabia nas fotos. E os que acham que ele fotografava para completar com imagens suas histórias. Mas Victor Jimenez, curador do livro “100 fotografias”, encerra a questão: “os dois conjuntos de obra que Rulfo nos legou não podem ser vistos em separado ou como complementares. São, ao fim e ao cabo, uma coisa só”. Pensando dessa forma, o melhor parece ser deixar o livro de fotos junto com o romance “Pedro Páramo”, no meu armário de livros.
É um velho armário fechado com portas de vidro, onde protejo da fúria tsunâmica de minha filha de cinco anos alguns objetos preciosos. Estão lá minhas velhas câmeras analógicas, duas cumbucas feitas pelos índios Assurini, do Pará, uma miniatura em cerâmica de uma peça arqueológica Maracá, um cartaz enrolado do Museu de Arqueologia e Etnologia de São Paulo, um exemplar de “Amazônia Antiga”. Além de vários livros mesmo, já que é para isso que se presta um armário de livros. Pierre Verger, Roger Bastide, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Gabriel García Marquez, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Cândido de Carvalho, Joyce, Cortázar, Borges, Hemingway, uma fração da coleção rubra e doirada “Os Imortais da Literatura Universal”, além de um monte de porcarias, das quais não me desfaço porque sou apegada a livros, mesmo aos ruins. Tenho até a “Moderna Enciclopédia Sexual”, publicada na década de 60, quando o divórcio ainda “deveria ser incluído na legislação brasileira”. Nesse armário de livros ganhos, esquecidos e, confesso nem um pouco envergonhada, furtados, ele estaria a salvo. E em boa companhia.
Mas eu ainda estou no processo de encantamento, daqueles bobinhos que temos em começos de namoro. Quero que ele fique ao alcance das minhas mãos. A qualquer momento do dia, posso pegá-lo e passear os olhos pelas fotos. Ou ler um dos vários textos. Ou simplesmente deslizar a mão pela capa, para evitar que qualquer poeirinha o incomode. Além do mais, minha filha já vai fazer cinco anos, está na hora de aprender a respeitar as coisas sagradas. E ela já sabe o que acontecerá se causar algum dano ao meu livro:
- Não sabe, Helena?
- Sei, mãe, a coisa vai ficar feia po meu lado!
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
No caminho
Por aqui passam vários cegos. Um, dois, três... Cada bengala é um terceiro olho. Ou talvez o único. De longe, atento para a ponta das bengalas, esperando o momento em que falharão e o cego trombará com o obstáculo. Sem me envergonhar desse pequeno sadismo, imagino que todos olhem esperando a mesma coisa. Um deles esbarra de frente com uma parede, só então me sinto constrangida.
Mulheres. Jalecos. Cabelos. Batons. Sapatoc... toc... toc...
Aquela foi uma noite de sábado. Pendurado no retrovisor, um esqueletinho de plástico prateado balança seus ossos. O taxista tem uma morenice quase índia. Junto essas duas referências e ensaio perguntar se ele é mexicano. Mas me calo. Na ponta oposta do banco, o homem dorme. Seu corpo é grande e macio. Não sinto, mas sei que seu cheiro é leve e claro, como sua pele chuviscada de sardas. Insisto comigo mesma que deveria falar com o taxista. Mas ele não é simpático e fico tímida.
Hoje, vejo os carros. Preto, prata, preto, prata, preto, prata. Por que tantos carros são pintados apenas com essas duas cores? À minha esquerda, um convento. Em alguma memória de infância, me dizem que nesse convento se produzem hóstias. Em alguma lembrança da juventude, lembro da amiga que dizia comer sobras de hóstias, que sua mãe ganhava das freiras, enquanto assistia à televisão. Rebarba, a palavra exata.
Até quando serei eu? Há um cansaço em ser para sempre a mesma pessoa. Tenho preguiça da eternidade.
Cobrindo o morro, muitas casas inacabadas se põem uma ao lado da outra e da outra e da outra. Aqui e ali, algumas - bem poucas - recebem o luxo de uma mão de tinta. Azul, amarelo, verde. Lembram-me uma prateleira de farmácia, lotada de pequenas caixas de remédio.
No livro italiano, o autor descrevia uma cena onde um casal passeia por uma praia. Não muito longe, se avistam pinheiros. Fiquei atenta às personagens, incapaz de visualizar o cenário. Pinheiros numa praia me parecem um absurdo excessivo para minha experiência tropical. Mergulho no quente escuro e é em um desses abismos de água que o homem me encontra.
O sol apenas insinua sua chegada quando ele acorda. Agora, quem dorme sou eu. Desperto quando sua mão alegre toca o couro elástico e escorregadio do meu quadril, ainda molhado e salgado de mar. As sereias, fora da água, pedem colo. Minha intolerância em pedir ajuda é tanta que, sem nem abrir ainda os olhos, desenho para mim longas pernas morenas, para que possa escapar quando quiser.
O que não posso é ser só mulher. Enfio ávidas mãos dentro de mim e trago o que primeiro encontro. Enquanto a mão alegre me passeia, minha boca se abre e não me surpreendo com os miados. Aninho-me no peito do homem e ronrono. Seu peito é grande e macio. E seu cheiro é leve e claro como sua pele chuviscada de sardas. Amanheço num domingo de primavera.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A Sala da Luz Vermelha
No local mais sagrado deste lugar, um altar invertido, estava um equipamento onde um pedaço de filme negativo era introduzido e uma luz – a única que não era vermelha- ampliava sobre um pedaço de papel fotossensível um desenho pouco compreensível para os intrusos. E o papel era mergulhado em bandejas recheadas de líquidos. Então, magicamente, ia surgindo pouco a pouco uma imagem positiva. Ah, a primeira vez que uma pessoa vê isto acontecer é incrível! Do fundo da água, em pontos escuros que vão se transformando em linhas e as linhas em sorrisos e olhares e composições... Na verdade, era sempre emocionante, fosse a primeira, a décima ou a milésima vez. E lá se iam uma hora, duas, três, oito horas esquecidas do mundo real... Eram sempre horas de magia. Eu disse magia? Não, este processo era pura técnica.
O tempo exato de a luz queimar o papel, o tempo exato no revelador, o tempo exato de interromper... Tudo calculado segundo a segundo: um relógio preciso era presença obrigatória. Se possível, um temporizador. Claro, muitas vezes as coisas não eram como se esperava. A pessoa batia os olhos numa cena, mas errava a exposição. No negativo, memória e registro não se bicavam. Hoje, um pouco de habilidade em programas de imagem resolvem bem este problema. Mas, lá na terra da luz vermelha, a habilidade morava no jeitinho de conduzir a luz sobre o papel. Com os dedos quase fechados, formando um túnel para a luz passar, como um jato direcionado, queimava-se as partes que deveriam ser queimadas. E poupavam-se as que deveriam ser poupadas. Ou se movia a mão escondendo um ou outro pedaço do papel. Sempre em movimento, para não ficarem marcas. Quantas imagens não foram salvas com estas máscaras! Mas não pense que era fácil. Era preciso ter experiência e fazer muitos testes até chegar ao ponto certo. Era preciso, acima de tudo, uma boa dose de sensibilidade e intuição para chegar lá. Também existiam os negativos com pouco contraste... Ah, é só ir clicando nas setinhas da esquerda onde se lê contraste, né? Não, meu filho. A sala da luz vermelha, apesar do nome parecido, não é o Lightroom. Era preciso calcular abertura e tempo de exposição, tempo de revelador e interruptor. Era preciso fazer tudo de novo. Também se podiam usar os filtros de contraste. Fosse como fosse, haja experiência, paciência e sensibilidade para chegar ao resultado ideal.
A fotografia digital tornou o processo completo – da captação à ampliação- muito mais acessível. E isto não significa que qualquer um consegue bons resultados. Experiência, sensibilidade, paciência e outras habilidades ainda determinam quem é de fato bom profissional. Mas o que me pergunto é onde ainda existem estes lugares incríveis, onde um sujeito de bem podia passar dias tão felizes na companhia das imagens? Faculdades? Laboratórios comerciais? No quartinho dos fundos de algum fotógrafo à moda antiga? Quem ainda tem um sagrado ampliador P&B, bandejas para a química e aquela peculiar lampadinha vermelha?
Não faço coro aos saudosistas. Mas sinto pena pelos mais jovens que já debutaram em câmeras digitais e não tiveram a oportunidade de aprender um pouco mais sobre o trato com a luz. A refotografia: quando fotografia era novamente feita, desta vez positiva e no papel. Ah, a luz vermelha, a magia das imagens surgindo... E, claro, o odor delicioso que só a mistura de revelador, fixador e interruptor podem produzir. Este odor grudento que ainda sinto cada vez que penso num laboratório de revelação P&B. Oras, quer saber? Eu sou, sim, uma saudosista.
domingo, 26 de setembro de 2010
Chiclete
Olhou a dica de senha: é de mascar. Oito letras. Tão fácil que ela compreendeu, quase compassiva, que tudo o que ele mais ansiava era que ela descobrisse. Na sua frente apareceu uma longa lista de mensagens. Todas de uma mesma pessoa: uma de suas mais queridas amigas. A vulva loira. Sirigaita!
Bastava ler a primeira. Leu todas. Um mês de paixonite descritos nos detalhes tão necessários aos apaixonados. O violão que ele tocava. E ela ouvia. O hotelzinho onde se acostavam. O restaurante onde comiam. O desconforto que ela descreveu, num muxoxo sentidinho, por ele ainda não ter passado a mão nos trapos e tirado a escova de dentes do armário. E a facada final: o convite que ele fazia para o aniversário do tio dali um mês.
Nem todas as declarações piegas de amor entre os dois, que se chamavam por diminutivos fofinhos, foram tão doloridas quanta a festa do tio Waldir. Pitombas! Como ele podia levar a sirigaita numa festa de familiagem reunida se ainda estavam casados? Há cinco anos casados! Por alguns minutos, o chão escapou. Na leveza do susto, que travou o estômago e provocou uma sensação de alheamento, não teve vontade de dizer palavra.
Copiou os textos de todos os e-mails trocados entre os dois e mandou para ele. No assunto, uma frase de amor qualquer. Nem uma palavra a mais. Fim do último ato.
De vez em quando, o tio Waldir dá as caras na sua lembrança. Gostava dele, bom sujeito.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Um Motivo
Mas lembro, sobretudo, da alegria. Uma tão grande alegria que não se podia explicar a uma criança tão pequena. Eu tinha, em 1977, apenas 4 anos e olhava os adultos encantada com sua euforia.
Poderia enumerar mais um grande número de razões. Mas esta pequena lembrança, da quebra do jejum de 23 anos (na verdade, foram 22 anos, 8 meses e 7 dias) sem título, escurecida pelo tempo como uma foto mal fixada, é suficiente. Este pequeno registro afetivo me basta para compreender porque sou corintiana. E porque sempre serei.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Trivial Simples: Carne de Porco à Edson Franco (ou como demonstrar amor próprio cozinhando só para você em plena segunda-feira)

Um bife de coxão mole suíno.
Meio pimentão amarelo médio cortado em tiras
Meia cebola média também em tiras
Meio raminho de alecrim desfiado
Quatro ou cinco cogumelos franceses fatiados
Meia dose de aguardente composta com zimbro
Azeite extra-virgem
Sal
Preparo
Em uma chapa de ferro bem quente coberta com azeite, sele o bife dos dois lados. Polvilhe com um pouco de sal e deixe-o dourar. Quando estiver dourado, acrescente, na sequencia, o pimentão, a cebola, os cogumelos e, por último, o alecrim. Regue com mais um pouco de azeite. Vá mexendo cuidadosamente sem parar. Quando o pimentão estiver macio (mas ainda firme) e o bife bem dourado, desligue a chapa. Acrescente a aguardente.
Acompanha arroz branco, feijão carioca, salada de almeirão picadinho com azeitonas, meio pãozinho. E, claro, mais azeite.
Rendimento: uma porção
Tempo de preparo: meia latinha de cerveja bem gelada.
Avaliação: estou me amando muito hoje.
