sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dia do Fotógrafo: outros estereótipos

OS OBCECADOS. Alguns são pelo equipamento. Mal ouviram falar de um lançamento com um 0,0001 mp a mais e já estão atrás da BH fazendo sua encomenda. Me lembro de um que tinha sempre a Cannon mais nova, com duas dúzias de lentes. E um dia ele mesmo confessou que não sabia para que tudo aquilo, se na época o que ele estava fazendo era o passo a passo pra uma revista de ‘ponto em cruz’.
Outros são obcecados pela própria fotografia. Não falam outra coisa. Conheci um rapaz que estava começando a fotografar. Era namorado de uma amiga do meu namorado. Nos encontrávamos em festas de amigos em comum e passávamos a noite toda ‘conversando’. Na verdade, ninguém tinha paciência com o rapaz: ele até era gente boa, mas só falava de fotografia. Então meu namorado, que era fotógrafo, saía de fininho. A namorada dele também. E restava a mim, pessoa tolerante e generosa, ouvir o moçoilo monologar durante horas sobre todas as suas reflexões, dúvidas e pretensões com relação ao seu único assunto. Alguns anos depois, nos encontramos casualmente numa livraria e ele me contou que estava namorando uma bailarina. Me surpreendi de ouvi-lo pela primeira vez falar de outro assunto. Aí a conversa foi indo até ele contar que, então, agora estava fotogrando balé. Pois é.

OS ANGUSTIADOS: às vezes, a angústia é com a fotografia. Eles olham, olham... E pensam que poderia ter ficado melhor, que não souberam aproveitar bem a ocasião, que o editor não soube escolher, que a impressão ficou ruim... Outros se angustiam com a relação do fotógrafo com o objeto fotografado. O rapaz vai lá numa comunidadezinha distante e volta se sentindo um ladrão de almas, perguntando a si mesmo e ao resto do mundo qual foi a contrapartida social deste trabalho. Acham que podem usar a fotografia para mudar o mundo. Mas, no fundo, não usam. Apenas se angustiam. Outras já extrapolam: estão angustiados é com a vida mesmo. Fazem da fotografia sua forma de expressão porque precisam muito expressar seu próprio “eu”, sabe? Ok! Eles costumam ser pessoas do bem! Mas, cá entre nós, prefiro os mais felizes.

Também não tenho muita paciência com os MENINOS PRODÍGIOS. São criativos, ousados, antenados. Mas geralmente tem uma empáfia! Compreendo bem que alguém que já tem fama de bom profissional antes de completar 30 anos fique um pouco deslumbrado. Mas me lembro que, não sei quando nem onde, o Pedro Martinelli disse que só se considerou fotógrafo depois de 10 anos de profissão. Acredito que tenha mais relação com a postura que se adquire com a experiência do que com o resultado técnico-estético das fotos. O bom é que os jovens talentos, com o tempo, vão percebendo que há mais coisas entre a câmara escura e o fundo infinito do que julga sua vã sabedoria. E vão se tornando pessoas menos arrogantes e, portanto, mais simpáticas e interessantes (talvez por isto os meus preferidos sejam os mais velhos).

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dia do Fotógrafo: os 'Cotoveleiros'

De todos os fotógrafos que conheci, os piores, para mim, são os 'Cotoveleiros'. Incrível, eles parecem ter mais cotovelos do que olhos! Em qualquer evento, vão empurrando todo mundo com os braços abertos, como galinhas chamando os pintinhos pra debaixo da asa. Quase sempre têm também uma bolsa enorme, que balançam de um lado para outro para afastar os concorrentes. Estão sempre desesperados para conseguir um lugar melhor, para fazer uma foto melhor, para fazer o registro único num local nem um pouco exclusivo. Acho que nunca passou pela cabeça deles a palavra ‘cooperação’. O que os torna mais patéticos é que, na maioria das vezes, fazem esta cena desnecessariamente. E preocupam-se tanto em concorrer com os colegas que não percebem o que realmente está se passando. Uma vez, cobrindo um Agrishow Ribeirão, levei várias cotoveladas de um cara que queria fotografar o presidente Lula. Ia empurrando todo mundo e dizendo que era do "O Globo". Mas a verdade é que o Lula, que ainda não tinha decepcionado muita gente, ficou um bom tempo no palco, fazendo pose para as lentes. Ele é quem tinha chegado atrasado. Só conseguiu fotografar dona Marisa, na saída, conversando com um palhaço (palhaço mesmo, de cara pintada e nariz vermelho) que estava fazendo não sei o que naquela cena.
O pior é que, no ano seguinte, lá estava ele de novo (o fotógrafo, não o palhaço). Com uma mochila gigante e um novo item no equipamento: uma escada. Eu disse: uma es-ca-da! Para quem não sabe, o Agrishow Ribeirão Preto é maior feira de agronegócios da América Latina, um evento realmente grande, mas bem organizado, com horários marcados, discursos programados e acesso absolutamente livre para a imprensa, com dezenas de computadores a disposição e cominhos caprichados, com sucos, refrigerantes, saladas, massas e queijos cremosos com geléia de framboesa (um luxo). Sem contar os shows e os jantares nos melhores restaurantes da cidade, exclusivo para jornalistas (ô saudade!). E eu pergunto: para que o desespero? Para que passar na frente dos outros? Para que a pressa? E o que ele ia fazer com uma escada num local onde não havia necessidade de se ver de cima?Aliás, para ver de cima mesmo, fotógrafos tinham direito a vôos panôramicos de helicóptero. É sério. E se ele não abria mão disto, bastava usar uma mesinha ou pedir uma escada, com certeza não faltaria. Desta vez ele estava fotografando o infame Severino Cavalcanti, que na época era presidente da Câmara. Falou umas bobeiras, abraçou uma criancinha com síndrome de Down e foi solenemente ignorado pela imprensa. Se alguém fez foto dele, foi só pra constar. Quando acabou o discurso, o fotógrafo cotoveleiro parecia mais tranquilo. E me deu umas olhadas, meio em jeito de flerte (até que ele era ajeitado, sabe?). Como sou boa fisionomista, reconheci na hora o cotovelador do ano anterior. E passei direto, fingindo que não tinha notado a existência dele. Porque simplesmente não dá pra levar a sério alguém que vai do Rio de Janeiro a Ribeirão Preto carregando uma escada nas costas.

08 de janeiro: Dia do Fotógrafo

No início de 1996, pela primeira vez fui apresentada a um fotógrafo. Foi uma apresentação que coincidiu com minhas primeiras aulas de fotografia na faculdade. O que eu não sabia é que, daí por diante, não me livraria mais deles. Trabalhando, estudando, viajando, conversando, namorando, tuitando... eu já perdi a conta de quantos conheci: são catorze anos de convivência ininterrupta. Então acho que estou habilitada a falar sobre as minhas impressões sobre eles. Vou começar pelos mais chatos (prometo que depois falo dos legais).

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Berinjelas?!

Hoje eu comprei uma berinjela pequena para fazer com molho de tomate e queijo, ao forno. Mas, já na hora de comprar, me lembrei de uma estória cabeluda. Minha irmã conhece uma pessoa, que tem um amigo que é dono de um motel. Aqui na grande São Paulo, perto de onde eu moro. E este amigo contou para esta pessoa, que contou para minha irmã, que contou para mim, que estou contando agora, que um cliente foi proibido de entrar no motel por causa das berinjelas. Pois é: berinjelas.
Era um cliente contumaz. Volta e meia aparecia por lá, cada vez (detalhe importante!) com uma acompanhante diferente. E, quando ia embora, o quarto estava repleto de berinjelas despedaçadas. Cansadas com a sujeira, as arrumadeiras se queixaram e os proprietários decidiram barrar o moço. Eu nem fiquei sabendo se elas estavam cruas ou cozidas. Grandes ou pequenas. Murchas ou rijas. Tampouco sei algo sobre o fulano ou suas variadas acompanhantes. Só sei que eram berinjelas.
A pergunta que me atormenta desde que eu soube desta estória é: o que este cara fazia com as berinjelas? Sei lá, se fossem pepinos, melancias, cenouras... mas, berinjelas? Estou lá no mercado comprando um singelo ingrediente para o almoço de amanhã e nem consigo escolher direito. Pego a primeira para não ficar pensando muito. Elas simplesmente perderam a inocência para mim. Não que eu tenha começado a sentir algum tipo de atração por berinjelas, além das já conhecidas gastronônicas. Apenas não sei conviver com um enigma tão grande.
Este tipo de dúvida me incomoda mais do que saber se há vida depois da morte. E, o pior, provavelmente eu nunca saiba...
Agora, se por acaso você for mais criativo do que eu e tiver alguma idéia do que se fazer num motel com berinjelas, me avise. Só por curiosidade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Amazônia Antiga - a Lama

Depois de uma cansativa e frustrada caminhada pela mata em busca de um suposto sítio arqueológico, voltamos enfim à margem onde tínhamos aportado. Apenas para descobrir que a maré havia secado. Entre nós e nosso barco: lama. No começo, até que não foi tão difícil. Bastava levantar a perna bem alto, dar um passo largo, afundar o pé novamente. Mas os passos iam ficando cada vez mais pesados, e o sol mais ardido, e a lama mais funda. Quando ela já tinha engolido metade do corpo e o barco ainda estava a uns cinquenta metros de distância, percebi que a vida nunca havia me parecido tão difícil (nessa época, eu ainda não era mãe). Veio o desespero, a birrenta vontade de desistir e dormir na mata, à espera da cheia da maré. Mas uma olhada rápida nos mostrou que a margem, naquela altura, já estava tão distante quanto a voadeira. Ir em frente era a única opção. O que aconteceu dali em diante não sou capaz de explicar. Um impulso inesperado, um segundo fôlego, um não-sei-quê de força. E já estávamos exaustos dentro do barco, com alguns rapazes caboclos que nos olhavam sem entender e um pequeno jacaré, amordaçado, que não teve a mesma sorte de safar-se.
Algumas horas depois, já tranquilos, compartilhamos o jantar com uma família ribeirinha, sem vizinhos à vista. A casa é de madeira, construída sobre pilares, para a passagem da água nos tempos de cheia. Em cima da mesa, a luz fraca de uma lamparina compete com as chamas do fogão a lenha, onde a mulher prepara graúdos camarões, tirados há pouco da água doce, que vai servindo a todos (o jacaré já era).
Estamos bem em frente ao gigante Amazonas, no ponto em que ele se casa com o oceano Atlântico e cercados pela mata densa, distante muitas horas de barco da cidade mais próxima. À porta da casa, no alto da escada que leva ao solo, posso observar as crianças que se deliciam barulhentas e risonhas com o banquete singelo e o escuro absoluto que nos rodeia. Experimento compreender como é a vida dessas pessoas, tão isoladas do resto do mundo e, ao mesmo tempo, tão senhoras em sua solidão. Numa noite tão escura como essa, de pouca lua e muitas estrelas, não é difícil vislumbrar fantasmas de outras eras, visagens que caminham pela mata protegendo seus espaços sagrados. Mas não há medo. Só uma sensação de que a solidão é ilusória, de que, por todo os lados, guardiões espreitam. Vejo, aqui, apenas uma família de pai-mãe-e-filhos. Mas quem pode afirmar quantos pés de gente passaram por esse mesmo chão nos últimos milhares de anos?


Trecho do livro Amazônia Antiga, Arqueologia do Entorno, DBA Editora

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Troca de Casais

- Eh... foi legal ficar com ele?
-Hunhum.
-...foi...?
- Foi. Nada extraordinário, mas foi bem legal.
- E...é...hum...
-Eu sei o que você quer perguntar.
-Eu?! O quê?
- Você quer saber se o pau dele é maior que o seu.
- Eu...? Ah...
-Tudo bem, eu conto.
-Conta?!
-Claro! Conto sim. Mas tem uma condição.
- Qual?
-Você tem que perguntar.
-Perguntar? Você acha que eu vou perguntar uma coisa destas?
-Se você perguntar, eu conto.
- Hum.
-Conto sim, juro. Mas só se-vo-cê-per-gun-tar...
-Não vou perguntar!
-Você é quem sabe.
- Não vou perguntar.
- Então tá.
- ...
- Mas, se perguntar, eu conto.
- ...
- ...
- ...eh...
-?
-Ok!
- ?
- O pau dele é maior do que o meu?
- Hahahahaha! Sabia que era isto o que você queria saber!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Água mole...

Na primeira vez em que Ricardo lhe deu uma cantada, ela ficou sem saber o que fazer. Era tão novinha, recém chegada na Universidade, nem sabia como dizer não, temerosa de magoar o rapaz. Mas ela já estava investindo em outra rapaz, um amigo dele, com quem acabou tendo um namoro intenso e tumultuado. Quando o tal romance acabou, quem apareceu? Ricardo. Ele estava novamente com olhos pedintes e voz amorosa. A diferença é que agora ela já não era tão inocente. E já tinha aprendido que Ricardo era um xavequeiro quase profissional. Bastava passar uma mulher na frente dele – ou atrás, ao lado, na esquina- e ele já espichava os grandes olhos de cílios longos e chegava mais perto para dizer seu texto ensaiado. Chegava a ponto de dizer a mesma coisa a garotas diferentes, que se divertiam depois comentando a gafe masculina. O que não impedia a sua lista de conquistas de crescer cada vez mais. De algum modo, porém, ele foi fazendo com que ela se sentisse especial. Elogiava não sua beleza, mas sua sensualidade. Ele parecia tão convicto de que ela era boa amante! Parecia querer tanto experimentar. Ela é que não queria nada. Estava tentando se recuperar de seu último desastre amoroso.
Mas, bastava por os pés numa festa, lá vinha o mocinho. Um mês depois, num bar qualquer, de novo ele. Insistentemente, assiduamente, lentamente. Fazia promessas sexuais, ia dizendo aos poucos suas habilidades. Depois de um tempo, ela já nem dava trela. Mas começou a gostar da situação. Virou uma brincadeira que beirava o sadismo. Mal avistava a figura pequena por trás dos óculos, e já começava a assumir uma postura mais sensual, preparava um sorriso dúbio, deixava os olhos prontos para um leve desdém divertido.
O que este rapaz estava fazendo era: dar poder a uma mulher. Uma deliciosa sensação de poder sexual. Sem um único toque, sem um único beijo, ele a transformava numa potente força. Ela gostou tanto que começou a provocá-lo. Chegou a dizer, brincando,que ele era, no fundo, um menino bonzinho. O que só o instigava mais. Esta sensação de poder feminino crescia a ponto de se transformar em desejo.
Uma noite, ao chegar a uma festa na casa de colegas da faculdade, ele já a cercou. Os olhos cada vez mais pidões, a voz cada vez mais insinuante, os corpos cada vez mais próximos. E disparou, sem dar tempo a ela de perceber: “hoje você podia dormir la em casa”. Três longos anos depois da primeira abordagem, ele ouviu sem acreditar a inesperada resposta: “tudo bem. Quando você for embora, me chama”.
Nem ela saberia dizer quando foi que decidiu dar pra ele. Mas a tensão erótica tinha chegada a um ponto que não havia mais o que inventar. Dançou a noite inteira, bebeu pouco, conversou com amigas, recebeu outros olhares. Já de madrugada, o moço se aproximou novamente e avisou incrédulo que estava indo. “Tá. Vou pegar minha bolsa”.
No caminho para a casa dele, caminhando lado a lado sem se tocarem, conversaram sobre coisas a toa. E lembraram quando se conheceram, sobre o ex-namorado dela, sobre todo o tempo que se passara entre a primeira cantada e esta noite. Então ele estacou e confessou: não estava acreditando que ela, finalmente, ia dormir com ele. Parecia quase decepcionado, como se estivesse tão acostumado ao jogo criado que temia perdê-lo.
Só ao chegar em casa tomou a iniciativa de tocá-la, um pouco sem jeito, tão tímido quanto ela. Para iniciar um noite memorável, quando ele cumpriu todas as promessa feitas e ela mostrou que valeu a pena a espera.